sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

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sábado, 14 de novembro de 2009

A Deusa Kubjikā



Por Fernando Liguori

[Nota: O texto que segue faz parte do ensaio O Culto da Deusa Kubjikā – o Secreto Culto da Deusa Kaula de Newar, ainda não publicado. O ensaio apresenta uma visão geral dos aspectos desconhecidos deste culto Kaula e apresenta uma breve introdução do culto Śākta conforme praticado em Newar no contexto da deusa Kubjikā, salientando sua forma de adoração conforme apresentada na história desta comunidade.]

A PINTURA de Kubjikā feita por Jñānakara Vajrācārya foi baseada na forma visualizada da deusa como descrita no Paścimajyeṣṭhāmnāyakarmārcanapaddhati. Essa típica liturgia Newar[1] representa a deusa na forma pelo qual os iniciados de Newar comumente a visualizam. Escolhi a imagem de acordo com esta escritura. Existem muitas variações de acordo com os Kubjikā Tantras. Sete variações diferentes são descritas no Manthānabhairavatantraṭīkā de Rūpaśiva. Outras podem ser encontradas em KuKh (29: 33 ff. e 49: 25cd ff.), KnT (11a ff.) e KRU (8: 53 ff). No nosso caso, ela carrega em suas mãos da direita, do topo até embaixo, o tridente, o espelho do karma, o vajra, um aguilhão, uma flecha e uma faca sacrificial. Nas correspondentes mãos da esquerda ela carrega uma cabeça cortada, um bastão ascético, sino, escritura, um arco e um recepiente para o sacrifício. Ela veste pele de tigre e leão e usa um colar de cabeças humanas, circundada por um círculo de estrelas (tārāmaṇḍala)

O paddhati diz que ela possui uma enorme barriga e encontra-se curvada (kubjārūpā). Ela é adornada com serpentes. Essas descrições são enfatizadas em várias escrituras, dando a ela o título de deusa das serpentes, a kuṇḍalinī. Ela está sentada em lótus no umbigo de Śiva que está abaixo dela como um trono (siṁhāsana). De acordo com os Kubjikā Tantras, o umbigo é o local onde ela descança na forma de uma serpente enrolada e de onde ela se ergue. A imagem portanto representa a deusa como a kuṇḍalinī emergindo de Deus como sua divina vontade (icchāśakti).

Uma interessante descrição desta imagem é a cor amarela de sua face frontal (pūrva). Essa não é a cor usual de sua face segundo as escrituras. Alguns eruditos iniciados de Newar afetuosamente se referem a Kubjikā em newari como māsukvaḥ mājū (a Mãe de Face Amarela). Uma grande máscara de bronze representando esta deusa foi encontrada em um templo proximo a Vajrayoginī nas vizinhaças de Śanku. Os iniciados de Newar associam a cor amarela de sua face com Brahmāṇī, a primeira das oito Mães (mātṛkā). Eu suponho que esta conexão explique porque os dançarinos de Durgā de Bhaktapur recebam seu poder de Brahmāṇī (i.e. Kubjikā) no ritual executado em seu santuário após o festival de nove dias a Durgā (navaratri) realizado no outono.
Embora seja originalmente uma deusa indiana, Kubjikā é quase exclusivamente adorada no Vale Kathmandu, onde seu culto tem sido mantido escrupulosamente secreto pelos iniciados de Newar por séculos.

Kubjikā é um poderoso desenvolvimento de Mālinī, a principal deusa dos Tantras da tradição Trika e da tradição Krama da Caxemira. Seu culto pertence a uma cadeia de sistemas Kaula que culminam no culto a deusa Tripurā. A importância histórica de Kubjikā é espelhada na extraordinária riqueza das dimensões espirituais de seu culto.

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1. O termo Newar se aplica aos descendentes de cidadãos do Nepal Medieval (que consiste do Vale Kathmandu como a capital e território em constante mutação, com uma extensão que vai do rio Gandaki a oeste ao rio Koshi ao leste, do Tibete ao norte e o Terai ao sul). O idioma falado é o Nepal Bhasa (newari, de acordo com as estatísticas do Nepal). Muitas comunidades Newars no Nepal possuem seu próprio dialeto newari. Podemos considerar os Newars como uma comunidade lingüística constituída por diferentes etnias vivendo sob uma linguagem comum.

Caminho Celestial...




"O devoto alcança o sucesso pelo caminho da mão-direita,
o herói pelo caminho da mão-esquerda. O yogí silencioso
alcança o sucesso pelo caminho celestial, nem pela direita,
nem pela esquerda.

Neste mais santificado caminho celestial, ele não carrega a
responsabilidade da adoração ou a recitação dos mantras. Com
uma mente silenciosa ele continuará sua busca perpétua aos pés
do supremo lótus da Mãe."

– Ganapati Muni, Uma Sahasram XII: 22-3


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Fluxos do Poder Feminino


Texto de Monika Von Koss, retirado do livro:  
Rubra Força: Fluxos do Poder Feminino.



Diz a sabedoria ancestral chinesa que para sermos felizes devemos fluir com o Tao, sermos como um rio em contínuo movimento e em constante mudança.
O fluir é algo que as mulheres experimentam a intervalos regulares – algumas vezes não tão regulares – quando vertem sangue durante suas regras. Curiosamente, não declinamos o verbo fluir na primeira pessoa. Dizemos que nosso sangue flui, mas soa estranho afirmar “Eu fluo”! Como então expressar essa experiência das mulheres? Quando entro em contato profundo com a menstruação, sou eu quem flui, torno-me fluida, torno-me o fluxo, e levo tudo comigo neste fluir. Posso experimentá-lo como uma cachoeira ou um regato que me purifica, renova, revigora. Ou posso vivê-lo como uma avalanche, uma enxurrada, algo que leva consigo tudo que encontra pelo caminho.
Qualquer que seja o modo como experimentamos nosso sangrar, quando o sangue flui abre-se um canal energético de comunicação com o mundo profundo. É um caminho que as mulheres percorrem regularmente, tornando-as mais sintonizadas com os eventos inconscientes, desde que não estejam conectadas com o medo que vem associado com este caminho , medo oriundo não do fluir em si, mas das conseqüências que este fluir pode trazer  e trouxe, ao longo do processo de patriarcalização, com o submentimento da percepção intuitiva a um saber puramente racional, um poder que prioriza a luz acima da escuridão, que prioriza o claro acima do escuro, que prioriza o linear acima o cíclico.
O que caracteriza o sangrar da mulher é sua ciclicidade. Um conjunto de eventos fisiológicos que iniciam e terminam em um mesmo acontecimento: o fluxo sangüíneo, a menstruação retorna regularmente, como as estações. Nessa sua regularidade, ela está associada como o primeiro contar do tempo, seja o tempo da coleta e da caça, seja o tempo da semeadoura e da colheita, seja o tempo da procriação e da gestação. E assim como o tempo, está também intimamente conectada com a lua, a cujo movimento cíclico respondem os oceanos, o ritmo cardíaco e o próprio pulsar da vida, em seu movimento de expansão e contração.
Como a trajetória da lua, o ciclo da mulher é um movimento contínuo que, em dado momento, interioriza-se, oculta-se, e em outro manifesta-se, explicita-se. A fecundidade feminina atinge seu pico no momento da ovulação, quando, oculto no interior do corpo da mulher, o óvulo deixa seu casulo e inicia sua jornada para a vida. Sob determinadas circunstâncias, ele se acomoda na parede uterina e se desenvolve pelo período de nove luas, para surgir como um novo ser. Ou então ele se desprende ainda no mesmo ciclo lunar e escorre junto com o fluxo menstrual.
Seja no parto, seja na menstruação, é no momento da passagem quando deixa o interior do corpo da mulher e se manifesta no mundo exterior, que o poder contido no fluxo sangüíneo lança a mulher numa condição liminar, em que vida e morte, consciente e inconsciente se tocam. Nesses momentos, o véu que separa os mundos é muito tênue, muito sutil, possibilitando sua transposição. Por essa razão, as xamãs precipitam sua menstruação antes de iniciar um trabalho poderoso. Pela mesma razão, as profetas e sibilas da Antiguidade Clássica eram jovens mulheres menstruando. As mulheres exerciam essa disciplina biomística que tinha por objetivo canalizar e direcionar o real poder do universo, “pois ele emana dos nossos próprios corpos e processos psíquicos.” (...)
O período menstrual é o momento em que podemos aprender mais a nosso respeito e curar nossas feridas. Assim reverenciada, a arte de menstruar pode ser recuperada, possibilitando uma vida mais plena e feliz como mulher.



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